Resultados para: socialismo moreno
Os 30 anos do PDT
quinta-feira, maio 27th, 2010 at 0:02
Talvez não haja nada que nos leve tanto à reflexão quanto um dia cansativo de trabalho e luta. Aqui em Brasília, onde a gente se sente mais só, isso é ainda mais forte. Por isso, para registrar o 30° aniversário do PDT, fui buscar algo que me liga ao passado, me liga exatamente ao tempo em que nasci. Para outros, talvez ligue ao tempo em que eram jovens como eu – vou me permitir isso, apesar da dor nas costas, tá?
E uma tolice acharem que nós, jovens, não nos ligamos ao passado. Não. É a única maneira de permanecermos jovens, de permanecermos abertos às novas ideias, de permanecermos vivos.
O problema é que não podemos viver só dele.
Eu sou neto de Leonel Brizola, ótimo. É uma honra, mas é também um julgamento pessoal e familiar como todos nós fazemos em relação as pessoas queridas que marcaram nossas vidas. Foi um avô presente, o quanto pôde; carinhoso, o quanto sabia ser, e rígido, o quanto julgava justo ser.
Mas o que devo a ele não é apenas honrar sua memória. E muito menos é isso o que me prende ao meu povo, ao meu país e à minha geração.
O que me une mais profundamente a ele é o desejo de agir para transformar a realidade.
Por isso, o que trago aqui para lembrar os 30 anos do PDT é algo que aconteceu um ano antes, quando antigos remanescentes do trabalhismo se juntaram a jovens (entre eles, Dilma Rousssef) que combateram, com o risco das próprias vidas, a ditadura militar, se reuniram para retomar um nome, uma sigla – que afinal perderam num golpe judicial – mas, acima de tudo retormar um sonho de um país justo, democrático e que caminhasse para um socialismo ao nosso jeito: tropical, moreno, libertário.
Aos que partilharam este desejo e que, por isso, nunca se foram, porque permanecem em nossas lutas presentes, a melhor homenagem, que é lembrar o que fizeram.
Brizola Neto Sem categoria Comments (21)
Liberdade sempre; Igualdade, agora e amanhã!
quinta-feira, maio 13th, 2010 at 13:58
Hoje é um dia muito especial. Nem tanto pelo ato da abolição da escravatura, esta vergonha da qual o Brasil foi um dos últimos países a se livrar, porque o sistema econômico já não podia conviver com ela, quando a princesa Isabel assinou a Lei Aurea. Até porque os negros, livres de direito, continuaram escravos da pobreza e do abandono, restritos à periferia da vida social.
Mas é especial porque lembra a todos nós que a abolição da escravatura , de fato, é o ato de reconhecermos que somos todos iguais. Um ato que não se conclui, que permanece em nossas atitudes a cada dia e que, sobretudo, se expressa em políticas que permitam, progressivamente, acabar com o imenso fosso social que vinha eternizando a exclusão de nossos irmãos negros num apartheid cultural, educacional e cidadão.
Ainda o vivemos, e às vezes de forma dramática como a escravidão de há 122 anos. É o que mostra a matéria da Folha de hoje, onde o economista Marcelo Paixão, da UFRJ, mostra que de cada quatro trabalhadores brasileiros libertados de situação análoga à escravidão, três são negros ou pardos. E não são poucos: são 73% dos 38.572 brasileiros libertados desta vergonha.
O trabalhismo tem orgulho de ter sido o primeiro partido a levantar a causa negra, tem o orgulho de ter sido um dos que criminalizou o racismo, com a Lei Caó, do jornalista Carlos Alberto de Oliveira dos Santos, nosso parlamentar. De termos entre nós um líder histórico do povo negro, Abdias doNascimento. De criarmos o termo “socialismo moreno”, para significar que igualdade, no Brasil, passa necessariamente pela igualdade racial.
Nenhum orgulho, porém, nos deixa mais felizes que ver os nossos irmãos ascendendo. Vivendo melhor, comendo melhor, tendo acesso aos bens a que todas as pessoas têm direito, educando melhor os seus filhos e, finalmente, podendo ingressar no ensino superior com a política de cotas que, apesar de toda a oposiçao da elite, não vai ser revertida.
A mesma Folha, no caderno de economia publica o gráfico que reproduzo aí ao lado. A renda dos brasileiros negros subiu 222% nos últimos oito anos. Seus padrões de consumo subiram. Ainda assim ,você pode reparar, o acesso das famílais negras a bens como fogões, máquina de lavar, computador, freezer e outros ainda é inferior ao que era o das famílias brancas oito anos antes. Em outros, como televisão, geladeira, telefone, são ligeiramente maiores do que o índice de 2001, mas ainda bem abaixo do que estas têm em 2007.
A discriminação racial e social, porém, prossegue. No jornal, Marcus Vinícius, estudante universitário, exemplifica com uma concessionária de automóvel: “acho que somos vistos como os integrantes da periferia, que não tem renda nem condição de comprar”.
Vamos continuar brigando para que não seja mais assim, para que o Brasil dê a todos os seus filhos, de todas as partes e de todas as cores, a idéia de que somos uma só coisa: brasileiros.
Que a liberdade e a igualdade, agora e para sempre, abram as asas sobre nós.
Brizola Neto Sem categoria Comments (6)
Lula e o “socialismo moreno”
terça-feira, março 16th, 2010 at 15:26
Ao ler hoje, no Valor Econômico, um trecho do discurso do presidente Lula e empresários em Israel, lembrei de como Leonel Brizola falava do “socialismo moreno”, algo que na época, os intelectuais – muitos do PT – ridicularizavam. Mas, vejam: não é da essência da democracia que o povo, na sua cor da pele, no seu jeito, em todas as esferas de poder e representação? Lula demonstrou ter absorvido este conceito ao afirmar:
“Possivelmente por causa de minha origem eu não conseguia perceber por que um metalúrgico de São Paulo iria brigar com um índio boliviano, e o índio está provando ser capaz de governar a Bolívia”, elogiou. “Os índios descobriram que têm de votar nos índios, que é a coisa mais normal. Anormalidade era um presidente louro de olhos azuis que quase nem falava espanhol governar a Bolívia”
Lula disse isso, segundo o jornal diante de ” uma silenciosa plateia de empresários, muitos de cabelos e olhos claros, em um país onde uma das questões mais sensíveis é a reivindicação de maior poder por parte dos palestinos e árabes de pele morena”.
Aliás, na mesma fala, Lula disse algo que deveria ser um bom conselho para os líderes do Rio de Janeiro nesta questão dos royalties. Ele contou que, depois de eleger-se presidente boliviano, com a simpatia de Lula, “o primeiro discurso do Evo Morales foi tomar a Petrobras”. O Brasil, disse, reconheceu o direito da Bolívia ao gás e “cedeu no que tinha de ceder”. Aí está uma boa orientação para essa batalha do Rio de Janeiro. Se defendermos o que é justo, e só assim, teremos força para evitar o que é injusto.
Consegui o áudio do discurso, que publico aí em cima.
quinta-feira, junho 17, 2010
quinta-feira, outubro 30, 2008
Crescem as consciencias esclarecidas em Bambuí

Após a campanha eleitoral de 2008, em que o nosso partido se pautou pela ética, pelo compromisso, pela seriedade e pelo oferecimento de propostas sinceras e efetivas para a nossa cidade, tivemos um coroamento com a maior votação que o PDT já obteve em todos os anos que existe em nosso município. A votação do PDT superou partidos tradicionais em nossa cidade, como o PSDB e o PMDB. Isto demonstra um crescimento real, ainda mais que nosso partido fez parte da coligação que obteve apenas 4.542 votos nas eleições majoritárias.
Ao analisar-mos os fatos, constatamos o quanto foi importante o trabalho de todos os membros do partido, principalmente daqueles que ofereceram seus nomes para a apreciação dos eleitores de Bambuí. Participar das eleições é um dever cívico de todos aqueles que querem o bem público e o desenvolvimento da cidade, além de educação de qualidade, trabalho digno e saúde ao alcance de todos, bandeiras que o nosso partido carrega com muito orgulho, vontade e dignidade!
Contribuíram oferecendo seus nomes para este crescimento, os seguintes companheiros: Agnos, Gilmar Ananias, João Bonifácio, José Aparecida da Padaria, Magno Terêncio, Nilma Costa e Regis dos Campos além dos companheiros coligados Dr. José Francisco e Luisinho Caminhoneiro do PHS.
Ao analisar-mos os fatos, constatamos o quanto foi importante o trabalho de todos os membros do partido, principalmente daqueles que ofereceram seus nomes para a apreciação dos eleitores de Bambuí. Participar das eleições é um dever cívico de todos aqueles que querem o bem público e o desenvolvimento da cidade, além de educação de qualidade, trabalho digno e saúde ao alcance de todos, bandeiras que o nosso partido carrega com muito orgulho, vontade e dignidade!
Contribuíram oferecendo seus nomes para este crescimento, os seguintes companheiros: Agnos, Gilmar Ananias, João Bonifácio, José Aparecida da Padaria, Magno Terêncio, Nilma Costa e Regis dos Campos além dos companheiros coligados Dr. José Francisco e Luisinho Caminhoneiro do PHS.
terça-feira, abril 15, 2008
Juventude Socialista instala comissão em Bambuí
“Verás que um filho teu não foge à luta”, este é o lema da JUVENTUDE SOCIALISTA do PDT
Filiada à IUSY ( International Union of Socialist Young) (www.iusy.org) , a Juventude Socialista do PDT (www.jspdt.org) chega a Bambuí pelas dinâmicas mãos dos jovens e instala sua primeira Comissão Provisória, assim composta:
Presidente: Nayara Paulinelli, filha do ex-Prefeito de Bambuí, Neysson Paulinelli e estudante, Vice-Presidente: Djavan Marcos Braziel, filho de José Braziel e ex- Mestre Conselheiro do Capítulo De Molay de Bambuí, Secretária Geral: Thais Magalhães Chaves, filha de Elcio de Oliveira Chaves e jovem advogada, Tesoureiro: Magno Terencio Chaves, filho de Sebastião de Assis Chaves e radialista, Secretária de Comunicação e Capacitação Política: Fernanda Carla de Oliveira, filha de Firmino Geraldo de Oliveira e Ex-presidente do Leo júnior de Bambuí, Secretário de Movimentos Estudantis: Giordanio Bonifácio Lasmar Marques, filho de João Bonifácio Marques Filho e membro do Leo Clube, e Secretário de Movimentos Sociais: Leandro Henrique Carvalho Correia, filho de Olímpio José da Silva Neto (Zezinho do Credibam) e estudante.
Tem por objetivo possibilitar a participação e a atuação da juventude bambuiense em todos os lances, momentos e decisões que afetem a vida em nossa comunidade. A Juventude Socialista do PDT, chega no momento adequado para dar vida e voz ao sentimento dos jovens, quer organizando as representações estudantis, quer trabalhando nos movimentos sociais, quer mostrando de forma, clara e vigorosa, o que pensa e o que quer o jovem bambuiense.
Filiada à IUSY ( International Union of Socialist Young) (www.iusy.org) , a Juventude Socialista do PDT (www.jspdt.org) chega a Bambuí pelas dinâmicas mãos dos jovens e instala sua primeira Comissão Provisória, assim composta:
Presidente: Nayara Paulinelli, filha do ex-Prefeito de Bambuí, Neysson Paulinelli e estudante, Vice-Presidente: Djavan Marcos Braziel, filho de José Braziel e ex- Mestre Conselheiro do Capítulo De Molay de Bambuí, Secretária Geral: Thais Magalhães Chaves, filha de Elcio de Oliveira Chaves e jovem advogada, Tesoureiro: Magno Terencio Chaves, filho de Sebastião de Assis Chaves e radialista, Secretária de Comunicação e Capacitação Política: Fernanda Carla de Oliveira, filha de Firmino Geraldo de Oliveira e Ex-presidente do Leo júnior de Bambuí, Secretário de Movimentos Estudantis: Giordanio Bonifácio Lasmar Marques, filho de João Bonifácio Marques Filho e membro do Leo Clube, e Secretário de Movimentos Sociais: Leandro Henrique Carvalho Correia, filho de Olímpio José da Silva Neto (Zezinho do Credibam) e estudante.
Tem por objetivo possibilitar a participação e a atuação da juventude bambuiense em todos os lances, momentos e decisões que afetem a vida em nossa comunidade. A Juventude Socialista do PDT, chega no momento adequado para dar vida e voz ao sentimento dos jovens, quer organizando as representações estudantis, quer trabalhando nos movimentos sociais, quer mostrando de forma, clara e vigorosa, o que pensa e o que quer o jovem bambuiense.
PDT de Bambuí elege diretório
Eleição de diretório em Bambuí, aponta o crescimento do PDT
Bastante expressivo!
Este é o comentário de todos, assim que tomam conhecimento da composição da direção do PDT(Partido Democrático Trabalhista) em Bambuí. Com um trabalho de base bem feito, o Partido Democrático Trabalhista (PDT), vem experimentando um grande crescimento. Graças a isso, deixou de ser apenas uma comissão provisória e se transformou em diretório desde o dia 16/03/2008, quando realizou sua convenção municipal. A escolha dos membros se deu pela eleição da chapa: “12 é Educação e Trabalho”, indicativa das atuais bandeiras deste partido. Quanto às eleições municipais de 2008, o diretório apontará os rumos do PDT somente após a convenção de junho!
São membros da direção municipal do PDT de Bambuí:
Ademir José Araújo
Afonso Luis Castelar Brito
Agnos Morais Silva
Airton Satil de Souza
Amasilis Carlos Silva Diamante
Antonio Rafael Sifuentes Gomes
Artur Bernardes da Silva Magalhães Brito
Elcio de Oliveira Chaves
Francisco de Assis Bahia
Genival Carvalho
Gilmar Maurício de Campos
Gislene Lasmar Silveira Marques
João Bonifácio Marques Filho
José Aparecida Ramos
José Batista da Silva
José Urbano de Souza
Leôncio Jânio Silva Diamante
Luciano Cardoso Gontijo
Magno Terencio Chaves
Mardonio Gomes Terra
Milton Cesar de Oliveira
Morgana C. de Souza Pedrosa
Nilma Costa
Rosa Maria da Consolação Magalhães
Reginaldo Alves Dornelas
Ronie dos Reis Costa
Silvano Eustáquio Gomes
Vitório Urias Chaves
Wilson Castelar Brito
Wilton José Ferreira
A executiva municipal ficou assim composta: Leôncio Diamante (presidente), Ronie Costa (1º vice-presidente), Afonso Brito (2º vice-presidente), Luciano Gontijo (secretário), Milton César (tesoureiro), Nilma Costa (1ª vogal) e Agnos Morais (2º vogal).
O PDT possui um site na internet (www.pdt.org.br) e é participante do movimento Internacional Socialista, junto com vários partidos, de outros países.(www.socialistinternational.org) .
Bastante expressivo!
Este é o comentário de todos, assim que tomam conhecimento da composição da direção do PDT(Partido Democrático Trabalhista) em Bambuí. Com um trabalho de base bem feito, o Partido Democrático Trabalhista (PDT), vem experimentando um grande crescimento. Graças a isso, deixou de ser apenas uma comissão provisória e se transformou em diretório desde o dia 16/03/2008, quando realizou sua convenção municipal. A escolha dos membros se deu pela eleição da chapa: “12 é Educação e Trabalho”, indicativa das atuais bandeiras deste partido. Quanto às eleições municipais de 2008, o diretório apontará os rumos do PDT somente após a convenção de junho!
São membros da direção municipal do PDT de Bambuí:
Ademir José Araújo
Afonso Luis Castelar Brito
Agnos Morais Silva
Airton Satil de Souza
Amasilis Carlos Silva Diamante
Antonio Rafael Sifuentes Gomes
Artur Bernardes da Silva Magalhães Brito
Elcio de Oliveira Chaves
Francisco de Assis Bahia
Genival Carvalho
Gilmar Maurício de Campos
Gislene Lasmar Silveira Marques
João Bonifácio Marques Filho
José Aparecida Ramos
José Batista da Silva
José Urbano de Souza
Leôncio Jânio Silva Diamante
Luciano Cardoso Gontijo
Magno Terencio Chaves
Mardonio Gomes Terra
Milton Cesar de Oliveira
Morgana C. de Souza Pedrosa
Nilma Costa
Rosa Maria da Consolação Magalhães
Reginaldo Alves Dornelas
Ronie dos Reis Costa
Silvano Eustáquio Gomes
Vitório Urias Chaves
Wilson Castelar Brito
Wilton José Ferreira
A executiva municipal ficou assim composta: Leôncio Diamante (presidente), Ronie Costa (1º vice-presidente), Afonso Brito (2º vice-presidente), Luciano Gontijo (secretário), Milton César (tesoureiro), Nilma Costa (1ª vogal) e Agnos Morais (2º vogal).
O PDT possui um site na internet (www.pdt.org.br) e é participante do movimento Internacional Socialista, junto com vários partidos, de outros países.(www.socialistinternational.org) .
segunda-feira, junho 11, 2007
O Brasil como problema
O Brasil como problema
Por isso mesmo, o Brasil sempre foi, ainda é, um moinho de gastar gentes. Construímo-nos queimando milhões de índios. Depois, queimamos milhões de negros. Atualmente, estamos queimando, desgastando milhões de mestiços brasileiros, na produção não do que eles consomem, mas do que dá lucro às classes empresariais
Capítulo do livro de Darcy Ribeiro, O Brasil como Problema, editado em 1995, no Rio de Janeiro.
Ao longo dos séculos, viemos atribuindo o atraso do Brasil e a penúria dos brasileiros a falsas causas naturais e históricas, umas e outras imutáveis. Entre elas, fala-se dos inconvenientes do clima tropical, ignorando-se suas evidentes vantagens.
Acusa-se, também, a mestiçagem, desconhecendo que somos um povo feito do caldeamento de índios com negros e brancos, e que nos mestiços constituímos o cerne melhor de nosso povo.
Também se fala da religião católica como um defeito, sem olhos para ver a França e a Itália, magnificamente realizadas dentro dessa fé.
Há quem se refira à colonização lusitana, com nostalgia por uma mirífica colonização holandesa. É tolice de gente que, visivelmente, nunca foi ao Suriname.
Existe até quem queira atribuir nosso atraso a uma suposta juvenilidade do povo brasileiro, que ainda estaria na minoridade. Esses idiotas ignoram que somos cento e tantos anos mais velhos que os Estados Unidos.
Dizem, também, que nosso território é pobre - uma balela. Repetem, incansáveis, que nossa sociedade tradicional era muito atrasada - outra balela. Produzimos, no período colonial, muito mais riqueza de exportação que a América do Norte e edificamos cidades majestosas corno o Rio, a Bahia, Recife, Olinda, Ouro Preto, que eles jamais conheceram.
Trata-se, obviamente, do discurso ideológico de nossas elites. Muita gente boa, porém, em sua inocência, o interioriza e repete. De fato, o único fator causal inegável de nosso atraso é o caráter das classes dominantes brasileiras, que se escondem atrás desse discurso. Não há corno negar que a culpa do atraso nos cabe é a nós, os ricos, os brancos, os educados, que impusemos, desde sempre, ao Brasil, a hegemonia de uma elite retrógrada, que só atua em seu próprio beneficio.
O que temos sido, historicamente, é um proletariado externo do mercado internacional. O Brasil jamais existiu para si mesmo, no sentido de produzir o que atenda aos requisitos de sobrevivência e prosperidade de seu povo. Existimos é para servir a reclamos alheios.
Por isso mesmo, o Brasil sempre foi, ainda é, um moinho de gastar gentes. Construímo-nos queimando milhões de índios. Depois, queimamos milhões de negros. Atualmente, estamos queimando, desgastando milhões de mestiços brasileiros, na produção não do que eles consomem, mas do que dá lucro às classes empresariais
Não nos esqueçamos de que o Brasil foi formado e feito para produzir pau-de-tinta para o luxo europeu. Depois, açúcar para adoçar as bocas dos brancos e ouro para enriquecê-los. Após a independência, nos estruturamos para produzir algodão e café. Hoje, produzimos soja e minério de exportação. Para isso é existimos como nação e como governo, sempre infiéis ao povo engajado no trabalho, sofrendo fome crônica, sempre servis às exigências alheias do mercado internacional.
O mercado internacional, que nos viabiliza no plano econômico, é a peia que nos ata ao cativeiro e à pobreza. É necessário que seja assim? Por que outros povos que, no passado, foram mais pobres e menos ilustrados, como é o caso dos Estados Unidos, nos passaram à frente?
Qual é a causa real de nosso atraso e pobreza? Quem implantou esse sistema perverso e pervertido de gastar gente para produzir lucros e riquezas de uns poucos e pobreza de quase todos?
Como uma das principais nações pobres do mundo, estamos desafiados, até internacionalmente, a buscar e encontrar caminhos de superação do subdesenvolvimento autoperpetuante em que fornos todos metidos pela política econômica das potências vitoriosas no pós-guerra. Tanto mais porque não há, em nenhum lugar da Terra, um modelo comprovadamente eficaz de ação contra a crise político-econômica em que estamos afundados.
O mundo subdesenvolvido tem os olhos postos em nós. Espera do Brasil alguma solução para nossos problemas comuns. Todos já suspeitam que, persistindo no papel de proletariados externos dos povos ricos, nos perpetuaremos na pobreza. Todos perguntam: como romper com essa perversão econômica e com a tragédia social que dela decorre para duas terças partes da humanidade?
É impossível nos isolarmos do mercado mundial, que nos viabiliza economicamente. Mas se é impossível o isolamento, é pelo menos suicida a postura dos que querem continuar regidos tão rigidamente pelo mercado internacional, que torna inalcançável uma prosperidade generalizável a todos os brasileiros.
O desafio que enfrentamos é, pois, o de conquistar uma nova forma de intercâmbio internacional, (que não seja tão onerosa para nós. Isto importa em reordenar as forças produtivas para que elas atendam primacialmente às necessidades nacionais de prover nutrição, assistência, moradia, educação a toda a população, e à necessidade, também imperativa, de produzir divisas para atuarmos dentro do mercado mundial, comprando tecnologias.
Queremos, do capitalismo, o que ele deu à América do Norte ou à Austrália, por exemplo, como economias situadas no mercado mas sabendo tirar dele proveitos próprios. Nenhuma outra nação conseguiu tanto quanto eles e, provavelmente, só o Brasil tem condições de repetir a façanha, graças à nossa disponibilidade de recursos naturais, de terras agriculturáveis e de mão-de-obra qualificada.
A tarefa deles foi bem mais simples que a nossa, porque são meros transplantes sensaborões (1.1 Europa, que limparam o seu território dos nativos e reconstituíram a paisagem de onde vieram. No nosso caso, trata-se ele criar um Povo Novo pela fusão de matrizes muito diferenciadas, que dará lugar a tini novo gênero de sociedade. Nossas potencialidades vêm sendo coactadas, de um lado, pela armadilha em que caímos ao aceitar formas de intercâmbio internacional que nos empobrecem. Isso era inevitável, porque partimos da condição de um proletariado externo, cuja mão-de-obra não existia para si mas para produzir gêneros exportáveis, Nossas classes dominantes só sabiam mesmo fazer isso, porque eram, de fato, representantes locais cio mercado internacional. De outro lado, vem sendo coactadas pelo monopólio da terra e sua conseqüência principal, que foi urbanização caótica, devida ao translado de 100 milhões de brasileiros para a vida famélica das cidades. Essa massa humana, que é a parte substancial de nosso povo, jamais terá acesso aos bens da civilização enquanto nossa economia estiver enquadrada nas diretrizes que as elites nos impõem.
Causas e Culpas
Vivemos, nós brasileiros, uma conjuntura trágica. 0 próprio destino nacional está em causa e é objeto de preocupação da cidadania mais lúcida e responsável. O aspecto mais grave e inquietante da crise que atravessamos é de natureza política. Frente a ela, as diretrizes econômicas, postas em prática por sucessivos governos, se caracterizam por uma incrível teimosia na manutenção de uma institucionalidade fundiária que condena o povo ao desemprego e à fome, pela mais crua insensibilidade social, por um servilismo vexatório diante de interesses alheios e pela mais irresponsável predisposição a alienar as principais peças constitutivas do patrimônio nacional.
Outra característica é sua animosidade frente ao Estado, visto como a fonte de todos os males. Será assim? Onde, nesse mundo, uma economia nacional floresceu sem um Estado que a conduzisse a metas prescritas? Onde estão esses empreendedores privados cuja sanha de lucrar promoveria o progresso nacional? Crerão esses fanáticos do neoliberalismo que o estado gerencial das multinacionais - que são entre nós o setor predominante das classes empresariais -se comove pelo destino nacional?
O que cumpre fazer em nosso País não é nenhuma modernização reflexa, dessas que atualizam um sistema produtivo apenas para fazê-lo mais eficaz no papel de provedor ele bens para o mercado mundial. É, isto sim, um salto evolutivo à condição de economia autônoma que exista e viva para si mesma, isto é, para seu povo. Para tanto, temos é que nos associar aos outros povos explorados, para denunciar e por um termo à ordem econômica vigente que faz os povos pobres custearem a prosperidade dos povos ricos através de um intercâmbio internacional gritantemente desigual.
Sobre essas bases é que se tem, necessariamente, de formular nosso projeto próprio de integração do Brasil na civilização pós-industrial, sempre atentos aos interesses nacionais, priorizando sempre o desenvolvimento social, ou seja, os interesses populares. A via da modernização reflexa pelo desenvolvimento dependente só nos faria fracassar na civilização emergente, tal como fracassamos ao tios integrarmos, por este mesmo caminho, à civilização industrial.
Só nós brasileiros, podemos definir esse projeto do Brasil que que ser. Não será, obviamente, o Brasil desejado pela minoria próspera que esta contentíssima com o Brasil tal qual é, e que só quer mais do que já tem. Mas o Brasil dos explorados e oprimidos que o modelo econômico vigente já levou a níveis incomprimíveis de miséria e desespero.
Somos Todos Culpados
Nunca faltaram vozes de denúncia desse caráter cruel de nossa sociedade. Inclusive vozes de reconhecimento de que é à nossa elite que ternos de debitar o desempenho medíocre do Brasil na civilização vigente. Cabe, agora, à nossa geração perguntar que culpa temos, enquanto classe dominante, no sacrifício e no sofrimento do povo brasileiro. Somos inocentes? Quem, letrado, não tem culpa neste País dos analfabetos? Quem, rico, está isento de responsabilidades neste País da miséria? Quem, saciado e farto, é inocente neste nosso País da fome? Somos todos culpados.
Nossos maiores, primeiro, nós próprios, depois, urdimos a teia inconsútil que é a rede em que nosso povo cresce constrangido e deformado. A característica mais nítida da sociedade brasileira é a desigualdade social que se expressa no altíssimo grau de irresponsabilidade social das elites e na distância que separa os ricos dos pobres, com imensa barreira de indiferença dos poderosos e de pavor dos oprimidos.
Nada do que interessa vitalmente ao povo preocupa de fato à elite brasileira. A quantidade e a qualidade da alimentação popular não podia ser mais escassa, nem pior. A qualidade de nossas escolas, a que o povo tem acesso, é tão ruim, que elas produzem de fato mais analfabetos que alfabetizados.
Os serviços de saúde de que a população dispõe são tão precários que epidemias e doenças já vencidas no passado voltam a grassar, como ocorre com a tuberculose, a lepra, a malária e inumeráveis outras.
A solução brasileira para a moradia popular, na realidade das coisas, é a favela ou o mocambo. Não conseguimos multiplicar nem mesmo essas precaríssimas casinhas de maribondo dos bancos da habitação e das caixas econômicas.
Nossa elite, bem nutrida, olha e dorme tranqüila. Não é com ela. Desafortunadamente, não é só a elite que revela essa indiferença fria ou disfarçada. Ela se espraia por toda a opinião pública, como hedionda herança comum de séculos de escravismo, enormemente agravada pela perpetuação da mesma postura ao longo de toda a república.
A triste verdade é que vivemos em estado de calamidade, indiferentes a ele porque a fome, o desemprego e a enfermidade não atingem os grupos privilegiados. O seqüestro de um rapaz rico mobiliza mais os meios de comunicação e o Parlamento do que o assassinato de mil crianças, o saqueio da Amazônia, ou o suicídio dos índios. E ninguém se escandaliza, nem sequer se comove com esses dramas.
A imprensa só protesta mornamente e o faz quando ecoa o que se divulga lá fora. Parece haver-se rompido o próprio nervo ético da nossa imprensa, que nos deu, no passado, tantos jornalistas cheios de indignação em campanhas imemoráveis de denúncia de toda sorte de iniqüidade. Hoje, quem determina o que se divulga, e com que calor se divulga qualquer coisa, não são os jornalistas, é o caixa, é a gerência dos órgãos de comunicação. E esta só está atenta as razões do lucro.
O que foi feito para pôr cobro a essa situação de calamidade? Na realidade dos fatos, nada foi feito. As vozes e o poderio dos que defendem os interesses do privatismo e as razões do lucro sobrepujam o clamor pelo atendimento das necessidades mais elementares do povo brasileiro. Nada é mais espantoso em nossos dias do que o fato de que quase ninguém se rebele contra o horror da paisagem humana do Brasil. Estamos matando, martirizando, sangrando, degradando, destruindo nosso povo! O conjunto das instituições públicas e das empresas privadas dessa nossa ingrata Pátria brasileira cios anos 90, o que faz, efetiva e eficazmente, é gastar o único bem que resultou de nossos séculos desta triste história: o povo brasileiro.
Somos, hoje, uma parcela ponderável da humanidade. Somamos mais de cento e sessenta milhões de brasileiros. Seríamos uma latinidade nova e louçã se alcançássemos coisas tão elementares como todo brasileiro comer todo dia, toda pessoa ter acesso a um emprego e toda criança progredir na escola. Mas não há nada disso. Nem há qualquer perspectiva de que isso se alcance em tempos previsíveis, pelos caminhos que vimos trilhando.
O lamentável é que temos tudo de que se necessita para que floresça no Brasil uma civilização bela e solidária. Herdamos uma das províncias maiores, mais belas e ricas do planeta. Somos um povo movido por uma incansável vontade de viver e de trabalhar, ativado pelo desejo mais intenso de felicidade, animado por uma alegria inverossímil para quem enfrenta tanta miséria. Contamos, ainda, com um corpo de empresários e de técnicos motivados e qualificados para a empresa de auto-superação que o Brasil tem que realizar.
Seremos impotentes para realizar as potencialidades de nossa terra e de nosso povo? É mesmo inevitável que continuemos enriquecendo os ricos e empobrecendo os pobres? Existe, por aí, algum projeto nacional alternativo, já formulado, que nos dê garantia de redenção?
Reiterar na rota política e no modelo de ação econômica que praticamos só nos dá segurança de perpetuação do atraso e até mesmo de genocídio, ou seja, de matança intencional do povo brasileiro, que é o que está em curso.
A ordem econômica vigente nada mais terna dar ao Brasil, senão miséria e mais miséria. O modelo de capitalismo que se viabilizou entre nós - aliás muito lucrativo - é impotente para criar uma prosperidade generalizável a todos os brasileiros.
Genocídio - estamos matando nosso povo
A situação Brasil é tão grave que só se pode caracterizar a política econômica vigente como genocida. Estão matando nosso povo. Estão minando, carunchando a vida de milhões de brasileiros. Desnutrida, desfibrada , nossa gente acabará se tornando mentalmente deficiente para compreender seu próprio drama e fisicamente incapacitada para o trabalho no esforço de superação do atraso.
Vivemos um processo genocida. O digo com dor, mas com o senso de responsabilidade de um brasileiro sensível, ao drama de nosso povo. O digo, também, como antropólogo habituado a examinar os dramas humanos.
Vivemos, com efeito, um processo genocida que faz vítimas preferenciais entre as crianças, os velhos e as mulheres; entre os negros, os índios e os caboclos.
Quantas crianças brasileiras morrem anualmente de fome, de inanição ou vitimadas por enfermidades baratas, facilmente curáveis? Estatísticas estrangeiras, cautelosas, falam de meio milhão. Estatísticas nacionais, menos cautas, contam mais ele oitocentas mil. Quantas serão essas crianças que poderiam viver, e morreram? Cada uma delas nasceu de uma mulher, foi amada, acariciada numa família, deu lugar a sonhos e planos, nos dias, nas horas, nas semanas, nos meses, nos breves anos de sua vida parca. Seguindo a tradição, muita mãe chorou resignada, achando que melhor fora que Deus levasse sua cria do que a deixar aqui nesse vale de lágrimas.
Sobre este drama tão brasileiro, se alça outro ainda maior. Impensável há uns poucos anos. Indizível. Refiro-me ao assassinato de crianças por aparatos parapoliciais. Uma vez, quando chegava do exílio, vendo a miséria que se estendeu sobre o País, multiplicando trombadinhas, previ, horrorizado, que acabaríamos por ter uma guerra das Forças Armadas contra os pivetes.
Essa guerra atroz está em curso. Não é ainda uma operação militar das Forças Armadas. Mas é já uma guerra cruenta contra a infância e a juventude pobres, travada por organizações paramilitares clandestinas. Consentidas pelo Governo. Ignoradas pela Justiça. Apoiadas por pequenos empresários assustados e por pessoas que se sentem inseguras, essas organizações crescem, aliciando combatentes, vale dizer, criminosos, para a triste tarefa de estancar a vida de milhares de crianças e jovens vistos como perigosos.
Quantos jovens estamos matando a tiros cada ano? Ignoramos! Os números internacionalmente difundidos e que nossa imprensa repete falam de um pouco mais de quinhentos nas principais cidades. Mas todos sabemos que seu número é muitíssimo maior.
Outras vítimas desse genocídio são as mulheres brasileiras, mortas em abortos malconduzidos. Também não sabemos contar os números espantosos dessas brasileiras, morrendo ou se inutilizando no esforço de não ter mais filhos. Quem assume a culpa de suas mortes e do sofrimento de tantíssimas delas que, malcuidadas, levam, vida afora, suas genitálias rotas e estropiadas? Não há aqui um feio crime de conivência de quantos condenam o aborto à clandestinidade?
Pior ainda que esse genocídio, mil vezes pior para o destino de nosso povo, é o caso daquelas mulheres, milhões delas, induzidas a esterilizar-se em programas sinistros de contenção da natalidade. Está em curso, em nossa Pátria, todo um enorme e ricamente financiado programa internacional clandestino de controle familiar pela esterilização das mulheres pobres, sobretudo das pretas e mestiças. Seu êxito é tamanho que se avalia já, oficialmente, com números do IBGE, em 44% as mulheres brasileiras em idade fecunda já esterilizadas. Castradas.
Esse número espantoso faz temer que já não sejamos capazes nem mesmo de repor a população que temos. Acaso a população brasileira excede aos recursos de nosso território? Não! Decisivamente não. Nosso território fértil é maior que o dos Estados Unidos e a população deles é o dobro da nossa. Temos, portanto, ainda possibilidade de aumentar a nossa participação no gênero humano. O que excede no Brasil é a população marginalizada e excluída pela força de trabalho pelo desemprego generalizado, provocado pelo sistema econômico vigente, fundado na precedência do lucro sobre a necessidade.
Mas há quem saiba muito bem quantos brasileiros, a seu juízo, devem existir no ano 2050. Não só sabe, como atua para que esse medonho número desejável deles se cumpra sobre nós. Organizações estrangeiras e internacionais, atuando criminosamente em nosso País, já esterilizaram mais de sete milhões de brasileiras.
Fazem-no através de médicos subornados que induzem suas clientes a permitir que lhes seccionem as trompas no curso de partos, realizados através de cesarianas. O Brasil, para escândalo mundial e vergonha nossa, é o País em que mais se realizam esses partos cirúrgicos. É, também, aquele em que mais vezes se utiliza desse procedimento para esterilizar mulheres.
São nacionais os tristes dinheiros desse suborno? Quem aprovou, neste País, tal política demográfica? Que instituição suficientemente autorizada e responsável decidiu quantos brasileiros existirão no futuro? Alguém, clandestinamente, decidiu e esta aliciando os capadores de mulheres Brasil adentro.
Quem ponderou sobre os convenientes ou os inconvenientes de deixarmos de ser uma população majoritariamente juvenil, para sermos uma população majoritariamente senil? O que se está fazendo ao esterilizar tão grande parcela de nossa população feminina é forçar a optação por uma maioria de idosos.
Nosso povo preservará, depois dessa drástica cirurgia, a vitalidade indispensável para sair do atraso ou estará condenado a afundar cada vez mais no subdesenvolvimento? Quem está interessado em que o Brasil seja capado e esterilizado? Serão brasileiros?
Por isso mesmo, o Brasil sempre foi, ainda é, um moinho de gastar gentes. Construímo-nos queimando milhões de índios. Depois, queimamos milhões de negros. Atualmente, estamos queimando, desgastando milhões de mestiços brasileiros, na produção não do que eles consomem, mas do que dá lucro às classes empresariais
Capítulo do livro de Darcy Ribeiro, O Brasil como Problema, editado em 1995, no Rio de Janeiro.
Ao longo dos séculos, viemos atribuindo o atraso do Brasil e a penúria dos brasileiros a falsas causas naturais e históricas, umas e outras imutáveis. Entre elas, fala-se dos inconvenientes do clima tropical, ignorando-se suas evidentes vantagens.
Acusa-se, também, a mestiçagem, desconhecendo que somos um povo feito do caldeamento de índios com negros e brancos, e que nos mestiços constituímos o cerne melhor de nosso povo.
Também se fala da religião católica como um defeito, sem olhos para ver a França e a Itália, magnificamente realizadas dentro dessa fé.
Há quem se refira à colonização lusitana, com nostalgia por uma mirífica colonização holandesa. É tolice de gente que, visivelmente, nunca foi ao Suriname.
Existe até quem queira atribuir nosso atraso a uma suposta juvenilidade do povo brasileiro, que ainda estaria na minoridade. Esses idiotas ignoram que somos cento e tantos anos mais velhos que os Estados Unidos.
Dizem, também, que nosso território é pobre - uma balela. Repetem, incansáveis, que nossa sociedade tradicional era muito atrasada - outra balela. Produzimos, no período colonial, muito mais riqueza de exportação que a América do Norte e edificamos cidades majestosas corno o Rio, a Bahia, Recife, Olinda, Ouro Preto, que eles jamais conheceram.
Trata-se, obviamente, do discurso ideológico de nossas elites. Muita gente boa, porém, em sua inocência, o interioriza e repete. De fato, o único fator causal inegável de nosso atraso é o caráter das classes dominantes brasileiras, que se escondem atrás desse discurso. Não há corno negar que a culpa do atraso nos cabe é a nós, os ricos, os brancos, os educados, que impusemos, desde sempre, ao Brasil, a hegemonia de uma elite retrógrada, que só atua em seu próprio beneficio.
O que temos sido, historicamente, é um proletariado externo do mercado internacional. O Brasil jamais existiu para si mesmo, no sentido de produzir o que atenda aos requisitos de sobrevivência e prosperidade de seu povo. Existimos é para servir a reclamos alheios.
Por isso mesmo, o Brasil sempre foi, ainda é, um moinho de gastar gentes. Construímo-nos queimando milhões de índios. Depois, queimamos milhões de negros. Atualmente, estamos queimando, desgastando milhões de mestiços brasileiros, na produção não do que eles consomem, mas do que dá lucro às classes empresariais
Não nos esqueçamos de que o Brasil foi formado e feito para produzir pau-de-tinta para o luxo europeu. Depois, açúcar para adoçar as bocas dos brancos e ouro para enriquecê-los. Após a independência, nos estruturamos para produzir algodão e café. Hoje, produzimos soja e minério de exportação. Para isso é existimos como nação e como governo, sempre infiéis ao povo engajado no trabalho, sofrendo fome crônica, sempre servis às exigências alheias do mercado internacional.
O mercado internacional, que nos viabiliza no plano econômico, é a peia que nos ata ao cativeiro e à pobreza. É necessário que seja assim? Por que outros povos que, no passado, foram mais pobres e menos ilustrados, como é o caso dos Estados Unidos, nos passaram à frente?
Qual é a causa real de nosso atraso e pobreza? Quem implantou esse sistema perverso e pervertido de gastar gente para produzir lucros e riquezas de uns poucos e pobreza de quase todos?
Como uma das principais nações pobres do mundo, estamos desafiados, até internacionalmente, a buscar e encontrar caminhos de superação do subdesenvolvimento autoperpetuante em que fornos todos metidos pela política econômica das potências vitoriosas no pós-guerra. Tanto mais porque não há, em nenhum lugar da Terra, um modelo comprovadamente eficaz de ação contra a crise político-econômica em que estamos afundados.
O mundo subdesenvolvido tem os olhos postos em nós. Espera do Brasil alguma solução para nossos problemas comuns. Todos já suspeitam que, persistindo no papel de proletariados externos dos povos ricos, nos perpetuaremos na pobreza. Todos perguntam: como romper com essa perversão econômica e com a tragédia social que dela decorre para duas terças partes da humanidade?
É impossível nos isolarmos do mercado mundial, que nos viabiliza economicamente. Mas se é impossível o isolamento, é pelo menos suicida a postura dos que querem continuar regidos tão rigidamente pelo mercado internacional, que torna inalcançável uma prosperidade generalizável a todos os brasileiros.
O desafio que enfrentamos é, pois, o de conquistar uma nova forma de intercâmbio internacional, (que não seja tão onerosa para nós. Isto importa em reordenar as forças produtivas para que elas atendam primacialmente às necessidades nacionais de prover nutrição, assistência, moradia, educação a toda a população, e à necessidade, também imperativa, de produzir divisas para atuarmos dentro do mercado mundial, comprando tecnologias.
Queremos, do capitalismo, o que ele deu à América do Norte ou à Austrália, por exemplo, como economias situadas no mercado mas sabendo tirar dele proveitos próprios. Nenhuma outra nação conseguiu tanto quanto eles e, provavelmente, só o Brasil tem condições de repetir a façanha, graças à nossa disponibilidade de recursos naturais, de terras agriculturáveis e de mão-de-obra qualificada.
A tarefa deles foi bem mais simples que a nossa, porque são meros transplantes sensaborões (1.1 Europa, que limparam o seu território dos nativos e reconstituíram a paisagem de onde vieram. No nosso caso, trata-se ele criar um Povo Novo pela fusão de matrizes muito diferenciadas, que dará lugar a tini novo gênero de sociedade. Nossas potencialidades vêm sendo coactadas, de um lado, pela armadilha em que caímos ao aceitar formas de intercâmbio internacional que nos empobrecem. Isso era inevitável, porque partimos da condição de um proletariado externo, cuja mão-de-obra não existia para si mas para produzir gêneros exportáveis, Nossas classes dominantes só sabiam mesmo fazer isso, porque eram, de fato, representantes locais cio mercado internacional. De outro lado, vem sendo coactadas pelo monopólio da terra e sua conseqüência principal, que foi urbanização caótica, devida ao translado de 100 milhões de brasileiros para a vida famélica das cidades. Essa massa humana, que é a parte substancial de nosso povo, jamais terá acesso aos bens da civilização enquanto nossa economia estiver enquadrada nas diretrizes que as elites nos impõem.
Causas e Culpas
Vivemos, nós brasileiros, uma conjuntura trágica. 0 próprio destino nacional está em causa e é objeto de preocupação da cidadania mais lúcida e responsável. O aspecto mais grave e inquietante da crise que atravessamos é de natureza política. Frente a ela, as diretrizes econômicas, postas em prática por sucessivos governos, se caracterizam por uma incrível teimosia na manutenção de uma institucionalidade fundiária que condena o povo ao desemprego e à fome, pela mais crua insensibilidade social, por um servilismo vexatório diante de interesses alheios e pela mais irresponsável predisposição a alienar as principais peças constitutivas do patrimônio nacional.
Outra característica é sua animosidade frente ao Estado, visto como a fonte de todos os males. Será assim? Onde, nesse mundo, uma economia nacional floresceu sem um Estado que a conduzisse a metas prescritas? Onde estão esses empreendedores privados cuja sanha de lucrar promoveria o progresso nacional? Crerão esses fanáticos do neoliberalismo que o estado gerencial das multinacionais - que são entre nós o setor predominante das classes empresariais -se comove pelo destino nacional?
O que cumpre fazer em nosso País não é nenhuma modernização reflexa, dessas que atualizam um sistema produtivo apenas para fazê-lo mais eficaz no papel de provedor ele bens para o mercado mundial. É, isto sim, um salto evolutivo à condição de economia autônoma que exista e viva para si mesma, isto é, para seu povo. Para tanto, temos é que nos associar aos outros povos explorados, para denunciar e por um termo à ordem econômica vigente que faz os povos pobres custearem a prosperidade dos povos ricos através de um intercâmbio internacional gritantemente desigual.
Sobre essas bases é que se tem, necessariamente, de formular nosso projeto próprio de integração do Brasil na civilização pós-industrial, sempre atentos aos interesses nacionais, priorizando sempre o desenvolvimento social, ou seja, os interesses populares. A via da modernização reflexa pelo desenvolvimento dependente só nos faria fracassar na civilização emergente, tal como fracassamos ao tios integrarmos, por este mesmo caminho, à civilização industrial.
Só nós brasileiros, podemos definir esse projeto do Brasil que que ser. Não será, obviamente, o Brasil desejado pela minoria próspera que esta contentíssima com o Brasil tal qual é, e que só quer mais do que já tem. Mas o Brasil dos explorados e oprimidos que o modelo econômico vigente já levou a níveis incomprimíveis de miséria e desespero.
Somos Todos Culpados
Nunca faltaram vozes de denúncia desse caráter cruel de nossa sociedade. Inclusive vozes de reconhecimento de que é à nossa elite que ternos de debitar o desempenho medíocre do Brasil na civilização vigente. Cabe, agora, à nossa geração perguntar que culpa temos, enquanto classe dominante, no sacrifício e no sofrimento do povo brasileiro. Somos inocentes? Quem, letrado, não tem culpa neste País dos analfabetos? Quem, rico, está isento de responsabilidades neste País da miséria? Quem, saciado e farto, é inocente neste nosso País da fome? Somos todos culpados.
Nossos maiores, primeiro, nós próprios, depois, urdimos a teia inconsútil que é a rede em que nosso povo cresce constrangido e deformado. A característica mais nítida da sociedade brasileira é a desigualdade social que se expressa no altíssimo grau de irresponsabilidade social das elites e na distância que separa os ricos dos pobres, com imensa barreira de indiferença dos poderosos e de pavor dos oprimidos.
Nada do que interessa vitalmente ao povo preocupa de fato à elite brasileira. A quantidade e a qualidade da alimentação popular não podia ser mais escassa, nem pior. A qualidade de nossas escolas, a que o povo tem acesso, é tão ruim, que elas produzem de fato mais analfabetos que alfabetizados.
Os serviços de saúde de que a população dispõe são tão precários que epidemias e doenças já vencidas no passado voltam a grassar, como ocorre com a tuberculose, a lepra, a malária e inumeráveis outras.
A solução brasileira para a moradia popular, na realidade das coisas, é a favela ou o mocambo. Não conseguimos multiplicar nem mesmo essas precaríssimas casinhas de maribondo dos bancos da habitação e das caixas econômicas.
Nossa elite, bem nutrida, olha e dorme tranqüila. Não é com ela. Desafortunadamente, não é só a elite que revela essa indiferença fria ou disfarçada. Ela se espraia por toda a opinião pública, como hedionda herança comum de séculos de escravismo, enormemente agravada pela perpetuação da mesma postura ao longo de toda a república.
A triste verdade é que vivemos em estado de calamidade, indiferentes a ele porque a fome, o desemprego e a enfermidade não atingem os grupos privilegiados. O seqüestro de um rapaz rico mobiliza mais os meios de comunicação e o Parlamento do que o assassinato de mil crianças, o saqueio da Amazônia, ou o suicídio dos índios. E ninguém se escandaliza, nem sequer se comove com esses dramas.
A imprensa só protesta mornamente e o faz quando ecoa o que se divulga lá fora. Parece haver-se rompido o próprio nervo ético da nossa imprensa, que nos deu, no passado, tantos jornalistas cheios de indignação em campanhas imemoráveis de denúncia de toda sorte de iniqüidade. Hoje, quem determina o que se divulga, e com que calor se divulga qualquer coisa, não são os jornalistas, é o caixa, é a gerência dos órgãos de comunicação. E esta só está atenta as razões do lucro.
O que foi feito para pôr cobro a essa situação de calamidade? Na realidade dos fatos, nada foi feito. As vozes e o poderio dos que defendem os interesses do privatismo e as razões do lucro sobrepujam o clamor pelo atendimento das necessidades mais elementares do povo brasileiro. Nada é mais espantoso em nossos dias do que o fato de que quase ninguém se rebele contra o horror da paisagem humana do Brasil. Estamos matando, martirizando, sangrando, degradando, destruindo nosso povo! O conjunto das instituições públicas e das empresas privadas dessa nossa ingrata Pátria brasileira cios anos 90, o que faz, efetiva e eficazmente, é gastar o único bem que resultou de nossos séculos desta triste história: o povo brasileiro.
Somos, hoje, uma parcela ponderável da humanidade. Somamos mais de cento e sessenta milhões de brasileiros. Seríamos uma latinidade nova e louçã se alcançássemos coisas tão elementares como todo brasileiro comer todo dia, toda pessoa ter acesso a um emprego e toda criança progredir na escola. Mas não há nada disso. Nem há qualquer perspectiva de que isso se alcance em tempos previsíveis, pelos caminhos que vimos trilhando.
O lamentável é que temos tudo de que se necessita para que floresça no Brasil uma civilização bela e solidária. Herdamos uma das províncias maiores, mais belas e ricas do planeta. Somos um povo movido por uma incansável vontade de viver e de trabalhar, ativado pelo desejo mais intenso de felicidade, animado por uma alegria inverossímil para quem enfrenta tanta miséria. Contamos, ainda, com um corpo de empresários e de técnicos motivados e qualificados para a empresa de auto-superação que o Brasil tem que realizar.
Seremos impotentes para realizar as potencialidades de nossa terra e de nosso povo? É mesmo inevitável que continuemos enriquecendo os ricos e empobrecendo os pobres? Existe, por aí, algum projeto nacional alternativo, já formulado, que nos dê garantia de redenção?
Reiterar na rota política e no modelo de ação econômica que praticamos só nos dá segurança de perpetuação do atraso e até mesmo de genocídio, ou seja, de matança intencional do povo brasileiro, que é o que está em curso.
A ordem econômica vigente nada mais terna dar ao Brasil, senão miséria e mais miséria. O modelo de capitalismo que se viabilizou entre nós - aliás muito lucrativo - é impotente para criar uma prosperidade generalizável a todos os brasileiros.
Genocídio - estamos matando nosso povo
A situação Brasil é tão grave que só se pode caracterizar a política econômica vigente como genocida. Estão matando nosso povo. Estão minando, carunchando a vida de milhões de brasileiros. Desnutrida, desfibrada , nossa gente acabará se tornando mentalmente deficiente para compreender seu próprio drama e fisicamente incapacitada para o trabalho no esforço de superação do atraso.
Vivemos um processo genocida. O digo com dor, mas com o senso de responsabilidade de um brasileiro sensível, ao drama de nosso povo. O digo, também, como antropólogo habituado a examinar os dramas humanos.
Vivemos, com efeito, um processo genocida que faz vítimas preferenciais entre as crianças, os velhos e as mulheres; entre os negros, os índios e os caboclos.
Quantas crianças brasileiras morrem anualmente de fome, de inanição ou vitimadas por enfermidades baratas, facilmente curáveis? Estatísticas estrangeiras, cautelosas, falam de meio milhão. Estatísticas nacionais, menos cautas, contam mais ele oitocentas mil. Quantas serão essas crianças que poderiam viver, e morreram? Cada uma delas nasceu de uma mulher, foi amada, acariciada numa família, deu lugar a sonhos e planos, nos dias, nas horas, nas semanas, nos meses, nos breves anos de sua vida parca. Seguindo a tradição, muita mãe chorou resignada, achando que melhor fora que Deus levasse sua cria do que a deixar aqui nesse vale de lágrimas.
Sobre este drama tão brasileiro, se alça outro ainda maior. Impensável há uns poucos anos. Indizível. Refiro-me ao assassinato de crianças por aparatos parapoliciais. Uma vez, quando chegava do exílio, vendo a miséria que se estendeu sobre o País, multiplicando trombadinhas, previ, horrorizado, que acabaríamos por ter uma guerra das Forças Armadas contra os pivetes.
Essa guerra atroz está em curso. Não é ainda uma operação militar das Forças Armadas. Mas é já uma guerra cruenta contra a infância e a juventude pobres, travada por organizações paramilitares clandestinas. Consentidas pelo Governo. Ignoradas pela Justiça. Apoiadas por pequenos empresários assustados e por pessoas que se sentem inseguras, essas organizações crescem, aliciando combatentes, vale dizer, criminosos, para a triste tarefa de estancar a vida de milhares de crianças e jovens vistos como perigosos.
Quantos jovens estamos matando a tiros cada ano? Ignoramos! Os números internacionalmente difundidos e que nossa imprensa repete falam de um pouco mais de quinhentos nas principais cidades. Mas todos sabemos que seu número é muitíssimo maior.
Outras vítimas desse genocídio são as mulheres brasileiras, mortas em abortos malconduzidos. Também não sabemos contar os números espantosos dessas brasileiras, morrendo ou se inutilizando no esforço de não ter mais filhos. Quem assume a culpa de suas mortes e do sofrimento de tantíssimas delas que, malcuidadas, levam, vida afora, suas genitálias rotas e estropiadas? Não há aqui um feio crime de conivência de quantos condenam o aborto à clandestinidade?
Pior ainda que esse genocídio, mil vezes pior para o destino de nosso povo, é o caso daquelas mulheres, milhões delas, induzidas a esterilizar-se em programas sinistros de contenção da natalidade. Está em curso, em nossa Pátria, todo um enorme e ricamente financiado programa internacional clandestino de controle familiar pela esterilização das mulheres pobres, sobretudo das pretas e mestiças. Seu êxito é tamanho que se avalia já, oficialmente, com números do IBGE, em 44% as mulheres brasileiras em idade fecunda já esterilizadas. Castradas.
Esse número espantoso faz temer que já não sejamos capazes nem mesmo de repor a população que temos. Acaso a população brasileira excede aos recursos de nosso território? Não! Decisivamente não. Nosso território fértil é maior que o dos Estados Unidos e a população deles é o dobro da nossa. Temos, portanto, ainda possibilidade de aumentar a nossa participação no gênero humano. O que excede no Brasil é a população marginalizada e excluída pela força de trabalho pelo desemprego generalizado, provocado pelo sistema econômico vigente, fundado na precedência do lucro sobre a necessidade.
Mas há quem saiba muito bem quantos brasileiros, a seu juízo, devem existir no ano 2050. Não só sabe, como atua para que esse medonho número desejável deles se cumpra sobre nós. Organizações estrangeiras e internacionais, atuando criminosamente em nosso País, já esterilizaram mais de sete milhões de brasileiras.
Fazem-no através de médicos subornados que induzem suas clientes a permitir que lhes seccionem as trompas no curso de partos, realizados através de cesarianas. O Brasil, para escândalo mundial e vergonha nossa, é o País em que mais se realizam esses partos cirúrgicos. É, também, aquele em que mais vezes se utiliza desse procedimento para esterilizar mulheres.
São nacionais os tristes dinheiros desse suborno? Quem aprovou, neste País, tal política demográfica? Que instituição suficientemente autorizada e responsável decidiu quantos brasileiros existirão no futuro? Alguém, clandestinamente, decidiu e esta aliciando os capadores de mulheres Brasil adentro.
Quem ponderou sobre os convenientes ou os inconvenientes de deixarmos de ser uma população majoritariamente juvenil, para sermos uma população majoritariamente senil? O que se está fazendo ao esterilizar tão grande parcela de nossa população feminina é forçar a optação por uma maioria de idosos.
Nosso povo preservará, depois dessa drástica cirurgia, a vitalidade indispensável para sair do atraso ou estará condenado a afundar cada vez mais no subdesenvolvimento? Quem está interessado em que o Brasil seja capado e esterilizado? Serão brasileiros?
terça-feira, maio 29, 2007
comprovado, somos todos mestiços...
28/05/2007 - 20h23
DNA de negros famosos retrata Brasil mestiço
Celebridades como Daiane dos Santos e Djavan têm boa porção de sangue não-africano.
Dados de nove personalidades são microcosmo da diversidade genética brasileira.
Reinaldo José Lopes
Do G1, em São Paulo
entre em contato
ALTERA O
TAMANHO DA LETRA A-A+O que poderia ter sido apenas uma curiosidade - desvendar as origens genéticas de nove celebridades de origem negra - ajudou a confirmar que o DNA dos brasileiros guarda uma mistura ainda mais complexa do que a aparência física do nosso povo sugere. Segundo o geneticista Sergio Danilo Pena, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Laboratório Gene responsável pelos testes, os afro-brasileiros famosos se encaixam perfeitamente no que se vê entre pessoas comuns que se definem como negras.
Saiba mais
» DNA influencia língua que povos falam
» Aborígenes australianos se originaram na África
"É incrível, mas os resultados que obtivemos nas nove pessoas estudadas são um microcosmo dos resultados de nosso estudo com indivíduos autoclassificados como pretos em São Paulo", contou Pena ao G1. O pesquisador da UFMG fez os testes a pedido da rede BBC Brasil.
O time de celebridades é integrado pelos cantores Milton Nascimento, Djavan, Seu Jorge e Sandra de Sá, pela ginasta Daiane dos Santos, pela atriz Ildi Silva, pelo puxador de samba Neguinho da Beija Flor, pelo jogador de futebol Obina e pelo religioso e ativista da causa negra Frei David Santos.
A BBC Brasil deve detalhar os resultados ao longo da semana. O primeiro, divulgado hoje, envolveu Daiane dos Santos e revelou que ela possui 39,7% de ancestralidade africana, 40,8% de ancestralidade européia e 19,6% de ancestralidade indígena. No entanto, Pena alerta que não se pode tomar literalmente demais o dado, por causa da margem de erro. Assim, não se pode dizer que Daiane seja geneticamente mais européia do que negra - a diferença entre as proporções não é estatisticamente significativa.
Não é a primeira vez que Pena investiga o perfil genômico de famosos. Em agosto do ano passado, o Fantástico exibiu testes com famosos como Ivete Sangalo (99,2% européia, 0,4% indígena e 0,4% africana), Marcos Palmeira (93% europeu, 5,5% indígena e o restante africano), Luiza Brunet (80% de ancestralidade européia, 15,5% de ancestralidade ameríndia e o restante africana) e Zeca Camargo (96,5% europeu, 2,6% indígena e apenas 0,9% africano).
A miscigenação acentuada, com proporções variáveis de contribuição genética de cada continente, também aparece nos estudos anteriores de Pena e seus colegas com populações do país. O mais significativo do ponto de vista histórico, no entanto, é a falta de equilíbrio entre a ascendência materna e a paterna das pessoas. Quase 90% dos famosos descendem de africanos pelo lado materno, mas só 44% deles têm a mesma ascendência pelo lado paterno.
"Isso reflete o fato de que, no Brasil, os relacionamentos entre pessoas de origem diferente eram sexualmente assimétricos", diz Pena. Trocando em miúdos: os brancos do sexo masculino tendiam a ter como parceiras mulheres negras ou indígenas, muitas vezes à força, mas o contrário - negros ou índios tendo filhos com brancas - quase nunca acontecia. Daí o desequilíbrio.
Do Oeste e de além
Os dados sobre os famosos são apenas uma pequena peça de um quebra-cabeças que está ficando mais claro graças a Pena e seus colegas, entre eles a geneticista Maria Cátira Bortolini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Nos últimos anos, eles têm mapeado a diversidade genética das populações africanas e brasileiras para entender melhor as origens dos negros do Brasil.
Três ferramentas principais são usadas para isso. A primeira é o DNA mitocondrial ou mtDNA, presente nas mitocôndrias, as usinas de energia das células. Ele só é passado de mãe para filho ou filha, e ajuda a estimar a ancestralidade materna da pessoa. A segunda é o cromossomo Y, a marca genética da masculinidade. Ele só é passado de pai para filho homem, fazendo, portanto, o serviço complementar ao mtDNA.
Os dois marcadores, no entanto, não perfazem um quadro integrado da herança genética de alguém. Assim, os pesquisadores estudam também vários trechos do DNA do núcleo da célula, que abriga tanto material de origem materna quanto paterna. Pena e seus colegas desenvolveram uma metodologia que envolve 40 regiões do DNA nuclear, que se distinguem por inserções (trechos a mais) ou deleções (trechos a menos) típicos. Elas têm uma correlação bastante boa com os continentes de origem da pessoa, permitindo fazer a estimativa de porcentagem, como a divulgada para Daiane dos Santos.
Os pesquisadores brasileiros descobriram recentemente que talvez seja preciso reescrever as origens presumidas para os afro-brasileiros. Até então, acreditava-se que uns 70% dos escravos brasileiros tivessem vindo de Angola, no Centro-Oeste da África, quase 20% do sudeste do continente (Moçambique e regiões vizinhas) e só uns 10% da África Ocidental (Nigéria e países adjacentes). O DNA dos negros paulistas, porém, indica que essa contribuição do oeste do continente pode ter sido entre duas e quatro vezes maior do que se acreditava.
Para Pena, a explicação mais provável é que os negros paulistas tenham recebido a contribuição de ancestrais de origem nigeriana vindos da Bahia, onde a maior parte dos escravos da África Ocidental desembarcara. Isso teria ocorrido no século 19, com o auge do ciclo do café, quando os paulistas compravam escravos da decadente economia nordestina e até recebiam negros alforriados em busca de emprego.
DNA de negros famosos retrata Brasil mestiço
Celebridades como Daiane dos Santos e Djavan têm boa porção de sangue não-africano.
Dados de nove personalidades são microcosmo da diversidade genética brasileira.
Reinaldo José Lopes
Do G1, em São Paulo
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ALTERA O
TAMANHO DA LETRA A-A+O que poderia ter sido apenas uma curiosidade - desvendar as origens genéticas de nove celebridades de origem negra - ajudou a confirmar que o DNA dos brasileiros guarda uma mistura ainda mais complexa do que a aparência física do nosso povo sugere. Segundo o geneticista Sergio Danilo Pena, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Laboratório Gene responsável pelos testes, os afro-brasileiros famosos se encaixam perfeitamente no que se vê entre pessoas comuns que se definem como negras.
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» Aborígenes australianos se originaram na África
"É incrível, mas os resultados que obtivemos nas nove pessoas estudadas são um microcosmo dos resultados de nosso estudo com indivíduos autoclassificados como pretos em São Paulo", contou Pena ao G1. O pesquisador da UFMG fez os testes a pedido da rede BBC Brasil.
O time de celebridades é integrado pelos cantores Milton Nascimento, Djavan, Seu Jorge e Sandra de Sá, pela ginasta Daiane dos Santos, pela atriz Ildi Silva, pelo puxador de samba Neguinho da Beija Flor, pelo jogador de futebol Obina e pelo religioso e ativista da causa negra Frei David Santos.
A BBC Brasil deve detalhar os resultados ao longo da semana. O primeiro, divulgado hoje, envolveu Daiane dos Santos e revelou que ela possui 39,7% de ancestralidade africana, 40,8% de ancestralidade européia e 19,6% de ancestralidade indígena. No entanto, Pena alerta que não se pode tomar literalmente demais o dado, por causa da margem de erro. Assim, não se pode dizer que Daiane seja geneticamente mais européia do que negra - a diferença entre as proporções não é estatisticamente significativa.
Não é a primeira vez que Pena investiga o perfil genômico de famosos. Em agosto do ano passado, o Fantástico exibiu testes com famosos como Ivete Sangalo (99,2% européia, 0,4% indígena e 0,4% africana), Marcos Palmeira (93% europeu, 5,5% indígena e o restante africano), Luiza Brunet (80% de ancestralidade européia, 15,5% de ancestralidade ameríndia e o restante africana) e Zeca Camargo (96,5% europeu, 2,6% indígena e apenas 0,9% africano).
A miscigenação acentuada, com proporções variáveis de contribuição genética de cada continente, também aparece nos estudos anteriores de Pena e seus colegas com populações do país. O mais significativo do ponto de vista histórico, no entanto, é a falta de equilíbrio entre a ascendência materna e a paterna das pessoas. Quase 90% dos famosos descendem de africanos pelo lado materno, mas só 44% deles têm a mesma ascendência pelo lado paterno.
"Isso reflete o fato de que, no Brasil, os relacionamentos entre pessoas de origem diferente eram sexualmente assimétricos", diz Pena. Trocando em miúdos: os brancos do sexo masculino tendiam a ter como parceiras mulheres negras ou indígenas, muitas vezes à força, mas o contrário - negros ou índios tendo filhos com brancas - quase nunca acontecia. Daí o desequilíbrio.
Do Oeste e de além
Os dados sobre os famosos são apenas uma pequena peça de um quebra-cabeças que está ficando mais claro graças a Pena e seus colegas, entre eles a geneticista Maria Cátira Bortolini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Nos últimos anos, eles têm mapeado a diversidade genética das populações africanas e brasileiras para entender melhor as origens dos negros do Brasil.
Três ferramentas principais são usadas para isso. A primeira é o DNA mitocondrial ou mtDNA, presente nas mitocôndrias, as usinas de energia das células. Ele só é passado de mãe para filho ou filha, e ajuda a estimar a ancestralidade materna da pessoa. A segunda é o cromossomo Y, a marca genética da masculinidade. Ele só é passado de pai para filho homem, fazendo, portanto, o serviço complementar ao mtDNA.
Os dois marcadores, no entanto, não perfazem um quadro integrado da herança genética de alguém. Assim, os pesquisadores estudam também vários trechos do DNA do núcleo da célula, que abriga tanto material de origem materna quanto paterna. Pena e seus colegas desenvolveram uma metodologia que envolve 40 regiões do DNA nuclear, que se distinguem por inserções (trechos a mais) ou deleções (trechos a menos) típicos. Elas têm uma correlação bastante boa com os continentes de origem da pessoa, permitindo fazer a estimativa de porcentagem, como a divulgada para Daiane dos Santos.
Os pesquisadores brasileiros descobriram recentemente que talvez seja preciso reescrever as origens presumidas para os afro-brasileiros. Até então, acreditava-se que uns 70% dos escravos brasileiros tivessem vindo de Angola, no Centro-Oeste da África, quase 20% do sudeste do continente (Moçambique e regiões vizinhas) e só uns 10% da África Ocidental (Nigéria e países adjacentes). O DNA dos negros paulistas, porém, indica que essa contribuição do oeste do continente pode ter sido entre duas e quatro vezes maior do que se acreditava.
Para Pena, a explicação mais provável é que os negros paulistas tenham recebido a contribuição de ancestrais de origem nigeriana vindos da Bahia, onde a maior parte dos escravos da África Ocidental desembarcara. Isso teria ocorrido no século 19, com o auge do ciclo do café, quando os paulistas compravam escravos da decadente economia nordestina e até recebiam negros alforriados em busca de emprego.
quinta-feira, fevereiro 15, 2007
Dez Anos sem Darcy Ribeiro
PDT faz semana "Dez Anos Sem Darcy Ribeiro"Osvaldo Maneschy14/2/2007
"Fracassei em tudo o que tentei na vida.
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
Tentei salvar os índios, não consegui.
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias .
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu"
Darcy Ribeiro
Em pleno carnaval deste ano, dia 17 de fevereiro, completam dez anos que o Brasil perdeu um de seus intelectuais mais lúcidos e brilhantes, o professor Darcy Ribeiro, que entre outras realizações – ou ‘fazimentos’, como ele dizia – foi o criador, com Oscar Niemeyer e Leonel Brizola - do sambódromo do Rio de Janeiro, que hoje é exemplo para o Brasil; e do Programa Especial de Educação que tinha como carro-chefe as escolas públicas de horário integral que o povo apelidou de ‘Brizolões’.
A Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini (FLB-AP), programou a semana “Dez Anos Sem Darcy Ribeiro” com uma série de eventos que começam dia 28 de fevereiro, a partir das 17 horas, com exposição fotográfica da trajetória pessoal e política de Darcy Ribeiro; seguida de palestra de um de seus grandes amigos e auxiliares, Eric Nepomuceno.
Tanto a exposição fotográfica quanto a palestra ocorrerão na sede nacional da FLB-AP, na Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro, na rua do Teatro 39 – ao lado do João Caetano, com as presenças do presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, e do presidente nacional da Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini, Manoel Dias.
A exposição fotográfica terá por base o acervo fotográfico da Fundação Darcy Ribeiro e o arquivo pessoal de Maria José Latgé, uma das organizadoras do ato juntamente com integrantes da secção Rio de Janeiro da FLB-AP, entre eles os jornalistas Sérgio Caldieri e Mário Grabois, além do presidente local da instituição.As celebrações prosseguem no dia 01 de março, a partir das 17 horas, com a apresentação no auditório da fundação do premiado documentário “Darcy, Pensador do Brasil”, de Edson de Souza; e prosseguem no dia 2 de março, às 17 horas, com a palestra do escritor e jornalista Gilberto Felisberto Vasconcellos que deverá estar lançando o seu novo “Darcy e a Criminalidade Acadêmica”, no prelo.
A Semana “Dez Anos Sem Darcy Ribeiro” se encerra no dia 5 de março, às 18h30m, com sessão solene no plenário Barbosa Lima Sobrinho da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) convocada pelo deputado Paulo Ramos em nome da bancada do PDT. Além de exaltar a memória de Darcy Ribeiro e o seu trabalho, vários colaboradores de Darcy Ribeiro no Programa Especial de Educação serão homenageados com moções. Leia Mais sobre Darcy Ribeiro
Rua Sete de Setembro, 141 5º andar Centro Rio de Janeiro RJ Cep 20050-002tels.: (21) 2221.0093 (21) 2232.5497 e 2252.9983 (fax)
"Fracassei em tudo o que tentei na vida.
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
Tentei salvar os índios, não consegui.
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias .
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu"
Darcy Ribeiro
Em pleno carnaval deste ano, dia 17 de fevereiro, completam dez anos que o Brasil perdeu um de seus intelectuais mais lúcidos e brilhantes, o professor Darcy Ribeiro, que entre outras realizações – ou ‘fazimentos’, como ele dizia – foi o criador, com Oscar Niemeyer e Leonel Brizola - do sambódromo do Rio de Janeiro, que hoje é exemplo para o Brasil; e do Programa Especial de Educação que tinha como carro-chefe as escolas públicas de horário integral que o povo apelidou de ‘Brizolões’.
A Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini (FLB-AP), programou a semana “Dez Anos Sem Darcy Ribeiro” com uma série de eventos que começam dia 28 de fevereiro, a partir das 17 horas, com exposição fotográfica da trajetória pessoal e política de Darcy Ribeiro; seguida de palestra de um de seus grandes amigos e auxiliares, Eric Nepomuceno.
Tanto a exposição fotográfica quanto a palestra ocorrerão na sede nacional da FLB-AP, na Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro, na rua do Teatro 39 – ao lado do João Caetano, com as presenças do presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, e do presidente nacional da Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini, Manoel Dias.
A exposição fotográfica terá por base o acervo fotográfico da Fundação Darcy Ribeiro e o arquivo pessoal de Maria José Latgé, uma das organizadoras do ato juntamente com integrantes da secção Rio de Janeiro da FLB-AP, entre eles os jornalistas Sérgio Caldieri e Mário Grabois, além do presidente local da instituição.As celebrações prosseguem no dia 01 de março, a partir das 17 horas, com a apresentação no auditório da fundação do premiado documentário “Darcy, Pensador do Brasil”, de Edson de Souza; e prosseguem no dia 2 de março, às 17 horas, com a palestra do escritor e jornalista Gilberto Felisberto Vasconcellos que deverá estar lançando o seu novo “Darcy e a Criminalidade Acadêmica”, no prelo.
A Semana “Dez Anos Sem Darcy Ribeiro” se encerra no dia 5 de março, às 18h30m, com sessão solene no plenário Barbosa Lima Sobrinho da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) convocada pelo deputado Paulo Ramos em nome da bancada do PDT. Além de exaltar a memória de Darcy Ribeiro e o seu trabalho, vários colaboradores de Darcy Ribeiro no Programa Especial de Educação serão homenageados com moções. Leia Mais sobre Darcy Ribeiro
Rua Sete de Setembro, 141 5º andar Centro Rio de Janeiro RJ Cep 20050-002tels.: (21) 2221.0093 (21) 2232.5497 e 2252.9983 (fax)
segunda-feira, dezembro 04, 2006
João Goulart e as reformas
Darcy Ribeiro
Quando Jango assumiu a Presidência da República, a conjuntura mundial era polarizada por duas fortes presenças: John Kennedy, no Governo dos Estados Unidos, aparentemente disposto a apoiar alternativas democráticas à revolução cubana, e João XXIII mobilizando a Igreja Católica para a responsabilidade social e para a opção pelos pobres.
Mudaram-se os tempos e as vontades. João XXIII morre. Kennedy é assassinado. Já nos funerais do Papa, Jango percebeu que Kennedy não se sentia animado a apoiar reformas na América Latina, com medo de sua própria direita. Foi nesta conjuntura cambiante que se definiu e se combateu pelas reformas de base, principalmente a Reforma Agrária, atrasada por um século, e a de controle do capital estrangeiro, notoriamente incapaz, se deixado solto, de gerar aqui uma prosperidade generalizável aos brasileiros.
No primeiro período de governo, Jango se ocupou, sobretudo, de livrar-se dos freios do falso parlamentarismo que lhe fora imposto pelo Congresso. Temiam que ele fizesse um governo trabalhista sensível às reivindicações populares, como de fato ocorreu. Recorde-se que Jango surgiu no quadro político como o Ministro do Trabalho de Getúlio Vargas que propôs dobrar o salário mínimo, provocando a revolta dos coronéis liderados por Golbery e Mamede. Revolta tão raivosa que Getúlio teve que demiti-lo. Só meses depois, reuniu forças para decretar o novo salário mínimo. Medida indispensável, porque estivera congelado durante todo o governo de Dutra.
A imagem política de Jango se fixou, a partir daí, como a do novo líder do trabalhista, tão firme na defesa dos assalariados e flexível nas articulações políticas quanto predisposto a modernizar a institucionalidade brasileira. Jango se aproximara de Getúlio quando este esta isolado em Itu, depois de deposto em 1945. Era um jovem fazendeiro vizinho, formado em Direito, que nunca advogara. Era dono, então de milhares de hectares de terras e engordava vinte mil cabeças de gado por ano. Convivendo com Getúlio, Jango foi ganho ideologicamente para a militância trabalhista, que introduziria nas lutas político-partidárias brasileiras um componente novo, tão distanciado do reacionarismo dos politicões profissionais, como da militância sindical comunista.
Com estas marcas distintivas, Jango se fez eleger Vice-Presidente de Juscelino Kubitschek e, depois, de Jânio Quadros. Em ambos os casos, em chapa eleitoral autônoma, como candidato do PTB. Encarnou a corrente política oriunda da Revolução de 30, que modernizará o Brasil, reformulando as relações de trabalho em bases positivistas e fundando a postura nacionalista de defesa de nossas riquezas e interesses. Jango foi adiante. Assumindo os direitos dos trabalhadores rurais até tornar-se, surpreendentemente, o principal defensor da sindicalização rural e da Reforma Agrária. Sua figura de líder nacionalista, trabalhista e reformista, num país de políticos atrasados e retrógrados, atraía apoio popular cada vez maior. Mas, também, repulsa cada vez mais profunda das elites.
Vencido o plebiscito de 1962, que proscreveu o parlamentarismo por 9 a 1 milhões de votos, Jango iniciou um esforço ingente para estabelecer uma aliança com o PSD, que lhe desse suporte parlamentar para as reformas de base. Conseguiu, assim, o apoio necessário para aprovar a Lei da Remessa de Lucros, através da qual empresas estrangeiras teriam direito de remeterem, para fora, dividendos de até 10% do capital que introduzissem no Brasil. Mas eram forçadas a deixar aqui os capitais ganhos no país, que viveriam o destino dos capitais nacionais. Não se desapropriava, nem se estatizava nada: tão somente definia-se como estrangeiro o que era estrangeiro e como nacional o que era nativo. Como a proporção era de 1 para 20, os defensores do capital estrangeiro se alvoroçaram.
Paralelamente, Jango articulava a aprovação pelo Parlamento de sua fórmula da Reforma Agrária, proposta na Mensagem Presidencial de 15 de março de 1964. Esta consistia em introduzir na Constituição o princípio de que a ninguém é lícito manter a terra improdutiva por força do direito de propriedade. Princípio do qual decorria a norma de uso lícito da terra, que seria o equivalente a quatro vezes a área efetivamente utilizada.
Essa reforma devolveria ao controle do Estado centenas de milhões de hectares de terra, sobretudo no Brasil Central e na Amazônia, apropriados abusivamente através de chicanas e grilagens por grandes latifundiários, com objetivo especulativo. Por essa via legal é que o Presidente pretendia dar terras, em pequenos lotes, a dez milhões de famílias, da mesma forma que a lei americana fizera, em 1860, distribuindo aos pioneiros o seu Oeste e criando o mercado interno, que foi o fundamento da prosperidade daquela nação. Jango sempre dizia que, com milhões de proprietários, mais famílias iriam comer, viver e progredir, mais gente se fixaria no campo, a propriedade estaria mais defendida e o capitalismo consolidado. Nada mais oposto, como se vê, ao comunismo.
Como era de esperar, essas duas reformas estruturais - que estavam não só formuladas criteriosamente mas em marcha para a concretização - uniram carnalmente toda a direita contra o governo, dissolvendo suas dissensões internas. Inclusive a oposição recíproca dos dois maiores partidos patronais: a UDN e o PSD, que viviam no desespero de verem o PTB crescer a cada eleição, de forma que sua vitória, na futura eleição presidencial, era não só previsível mas inevitável.
Dois Brasis se defrontavam ali. Numa vertente, estava o Brasil das Reformas de Base, empenhado em abrir perspectiva para uma nova era, fundada numa prosperidade oriunda da economia rural e da mobilização da economia urbana, ampliada através das outras reformas em marcha: a urbana, a fiscal, a educacional e a administrativa. Na vertente oposta, estava o Brasil da reação, em união sagrada para a conspiração e o golpe, sem qualquer escrúpulo, a fim de manter a velha ordem.
O Brasil vinha se construindo, confiante como nunca em sua capacidade de transformar-se para superar o atraso e acabar com a pobreza, quando sobreveio o golpe militar de abril de 1964. O que queríamos era alargar os quadros sociais, para que mais brasileiros tivessem empregos em que progredissem por seu esforço, para que todos comessem todos os dias, para que cada criança tivesse oportunidade de completar seu curso primário. Vale dizer, aquilo que é progresso e modernidade para nações civilizadas. Tudo dentro da democracia e da lei.
O golpe militar de 1964 foi uma irrupção abrupta do fluxo histórico brasileiro, que reverteu seu sentido natural, com efeitos indeléveis sobre a soberania e sobre a economia nacional e também sobre a cidadania, sobre a sociedade e a cultura brasileiras. Vínhamos, há décadas, construindo a duras penas uma nação autônoma, moderna, socialmente responsável e respeitosa da ordem civil, quando sobreveio o golpe e a reversão.
O Brasil atual é fruto e produto da ditadura militar, que armou-se de todos os poderes para conformar a realidade brasileira segundo diretrizes opostas às até então vigentes. O golpe militar teve como finalidade, basicamente, impedir aquelas reformas. Para isso é que mobilizou os latifundiários, em razão dos seus interesses; e os políticos da UDN e do PSD, que vinham minguando ano a ano. Apesar de poderosas, estas forças nativas não podiam, por si mesmas, derrubar o governo. Apelaram, então, para o capital estrangeiro e seu defensor no mundo, que é o governo norte-americano, entregue à estratégia da guerra fria. Os conspiradores de 1964 não só aceitaram, mas solicitaram a intervenção estrangeira no Brasil, rompendo nossa tradição histórica de defesa ciosa da autonomia e de repulsa a qualquer ingerência em nossa autodeterminação.
Assim é que se pôs em marcha a operação de desmonte do governo constitucional brasileiro através de um golpe urdido na embaixada norte-americana, orientada pelo Departamento de Estado e coordenada pelo adido militar, que atou ações golpistas dos governadores de Minas, do Rio e de São Paulo e as articulou com a conspiração subversiva dos oficiais udenistas das Forças Armadas, que maquinavam desde 1945 contra a democracia brasileira.
As ações operativas de criação de um ambiente propício ao golpe foram entregues à CIA, que recebeu para isso dezenas de milhões de dólares, competentemente utilizados na mobilização de toda a mídia para uma campanha sistemática de incompatibilização da opinião pública com o governo - definido como perigosamente comunista -, seguida de promoção de grandes marchas pseudo-religiosas de defesa da democracia e das liberdades. Ambas tiveram profunda repercussão nas classes médias, sempre suscetíveis de manipulação, mas não afetaram o apoio popular ao governo populista,
Simultaneamente organizaram instituições especificamente destinadas a subornar parlamentares: o IPES e o IBAD, que chegaram a aliciar centenas de deputados e senadores para o golpismo. Ao mesmo tempo infiltraram agentes provocadores nas forças armadas, como o cabo Anselmo, treinados para atos de insubordinação, destinados a sensibilizar a oficialidade, como se fossem atentados à hierarquia militar. Criou-se, assim, o ambiente propício à eclosão do golpe militar.
O inconveniente maior de conspirar com os norte-americanos é que, passados vinte anos, eles abrem seus arquivos e contam tudo. Assim sucedeu com a documentação referente à intervenção do governo de Lyndon Johnson. Uma vez divulgada, ela permitiu ver como o golpe foi urdido na embaixada norte-americana por seu adido militar, orientado para isto desde Washington. Foi desencadeado com forte contingente armado, postado no Porto de Vitória, com instruções de marchar sobre Belo Horizonte.
Conforme se vê, a direita brasileira e seus aliados externos estavam dispostos a desencadear uma guerra civil sangrenta, com risco de dividir o Brasil como sucedeu na Coréia e no Vietnã, para evitar que algumas reformas estruturais, indispensáveis desde sempre, fossem executadas legalmente pela vontade dos brasileiros, João Goulart é que, negando-se a dar uma ordem que importasse em derramamento de sangue, impediu essa guerra civil, que a seus olhos podia ter custado a vida de milhões de brasileiros e, provavelmente dividido o Brasil em dois.
Registrando esses fatos, agora, reavalio minha própria posição, que era contrária à do Presidente. Fiz o quanto me foi possível para que o governo respondesse à sublevação com ações concretas. Era perfeitamente possível usar os aviões do Brigadeiro Teixeira para devolver aos quartéis a tropa de recrutas de Mourão, o general que se designara como vaca fardada, porque deu o golpe e não aproveitou. Os fuzileiros do Almirante Aragão podiam também ter prendido Lacerda e Castello Branco. A essas ações se seguiria, previsivelmente, a adesão dos grandes exércitos a um governo que se revelara capaz de defender-se. Esta não foi a visão do Presidente, informado por outros conselheiros de que uma armada norte-americana estava vindo intervir nas nossas lutas internas, o que converteria o golpe, se revidado, numa guerra civil.
O golpe foi todo um êxito, proclamado como a maior vitória do Ocidente contra o comunismo, maior que o desarmamento nuclear de Cuba, maior do que a crise de Berlim, disse orgulhoso o idiota embaixador Gordon, Jango não caiu por ocasionais defeitos de seu governo. Foi derrubado em razão de suas altas qualidades, como o responsável pelo maior esforço que se fez entre nós para passar o Brasil a limpo, criando aqui uma sociedade mais livre e mais justa.
© Copyright 2002 - PDTPartido Democrático Trabalhista
Quando Jango assumiu a Presidência da República, a conjuntura mundial era polarizada por duas fortes presenças: John Kennedy, no Governo dos Estados Unidos, aparentemente disposto a apoiar alternativas democráticas à revolução cubana, e João XXIII mobilizando a Igreja Católica para a responsabilidade social e para a opção pelos pobres.
Mudaram-se os tempos e as vontades. João XXIII morre. Kennedy é assassinado. Já nos funerais do Papa, Jango percebeu que Kennedy não se sentia animado a apoiar reformas na América Latina, com medo de sua própria direita. Foi nesta conjuntura cambiante que se definiu e se combateu pelas reformas de base, principalmente a Reforma Agrária, atrasada por um século, e a de controle do capital estrangeiro, notoriamente incapaz, se deixado solto, de gerar aqui uma prosperidade generalizável aos brasileiros.
No primeiro período de governo, Jango se ocupou, sobretudo, de livrar-se dos freios do falso parlamentarismo que lhe fora imposto pelo Congresso. Temiam que ele fizesse um governo trabalhista sensível às reivindicações populares, como de fato ocorreu. Recorde-se que Jango surgiu no quadro político como o Ministro do Trabalho de Getúlio Vargas que propôs dobrar o salário mínimo, provocando a revolta dos coronéis liderados por Golbery e Mamede. Revolta tão raivosa que Getúlio teve que demiti-lo. Só meses depois, reuniu forças para decretar o novo salário mínimo. Medida indispensável, porque estivera congelado durante todo o governo de Dutra.
A imagem política de Jango se fixou, a partir daí, como a do novo líder do trabalhista, tão firme na defesa dos assalariados e flexível nas articulações políticas quanto predisposto a modernizar a institucionalidade brasileira. Jango se aproximara de Getúlio quando este esta isolado em Itu, depois de deposto em 1945. Era um jovem fazendeiro vizinho, formado em Direito, que nunca advogara. Era dono, então de milhares de hectares de terras e engordava vinte mil cabeças de gado por ano. Convivendo com Getúlio, Jango foi ganho ideologicamente para a militância trabalhista, que introduziria nas lutas político-partidárias brasileiras um componente novo, tão distanciado do reacionarismo dos politicões profissionais, como da militância sindical comunista.
Com estas marcas distintivas, Jango se fez eleger Vice-Presidente de Juscelino Kubitschek e, depois, de Jânio Quadros. Em ambos os casos, em chapa eleitoral autônoma, como candidato do PTB. Encarnou a corrente política oriunda da Revolução de 30, que modernizará o Brasil, reformulando as relações de trabalho em bases positivistas e fundando a postura nacionalista de defesa de nossas riquezas e interesses. Jango foi adiante. Assumindo os direitos dos trabalhadores rurais até tornar-se, surpreendentemente, o principal defensor da sindicalização rural e da Reforma Agrária. Sua figura de líder nacionalista, trabalhista e reformista, num país de políticos atrasados e retrógrados, atraía apoio popular cada vez maior. Mas, também, repulsa cada vez mais profunda das elites.
Vencido o plebiscito de 1962, que proscreveu o parlamentarismo por 9 a 1 milhões de votos, Jango iniciou um esforço ingente para estabelecer uma aliança com o PSD, que lhe desse suporte parlamentar para as reformas de base. Conseguiu, assim, o apoio necessário para aprovar a Lei da Remessa de Lucros, através da qual empresas estrangeiras teriam direito de remeterem, para fora, dividendos de até 10% do capital que introduzissem no Brasil. Mas eram forçadas a deixar aqui os capitais ganhos no país, que viveriam o destino dos capitais nacionais. Não se desapropriava, nem se estatizava nada: tão somente definia-se como estrangeiro o que era estrangeiro e como nacional o que era nativo. Como a proporção era de 1 para 20, os defensores do capital estrangeiro se alvoroçaram.
Paralelamente, Jango articulava a aprovação pelo Parlamento de sua fórmula da Reforma Agrária, proposta na Mensagem Presidencial de 15 de março de 1964. Esta consistia em introduzir na Constituição o princípio de que a ninguém é lícito manter a terra improdutiva por força do direito de propriedade. Princípio do qual decorria a norma de uso lícito da terra, que seria o equivalente a quatro vezes a área efetivamente utilizada.
Essa reforma devolveria ao controle do Estado centenas de milhões de hectares de terra, sobretudo no Brasil Central e na Amazônia, apropriados abusivamente através de chicanas e grilagens por grandes latifundiários, com objetivo especulativo. Por essa via legal é que o Presidente pretendia dar terras, em pequenos lotes, a dez milhões de famílias, da mesma forma que a lei americana fizera, em 1860, distribuindo aos pioneiros o seu Oeste e criando o mercado interno, que foi o fundamento da prosperidade daquela nação. Jango sempre dizia que, com milhões de proprietários, mais famílias iriam comer, viver e progredir, mais gente se fixaria no campo, a propriedade estaria mais defendida e o capitalismo consolidado. Nada mais oposto, como se vê, ao comunismo.
Como era de esperar, essas duas reformas estruturais - que estavam não só formuladas criteriosamente mas em marcha para a concretização - uniram carnalmente toda a direita contra o governo, dissolvendo suas dissensões internas. Inclusive a oposição recíproca dos dois maiores partidos patronais: a UDN e o PSD, que viviam no desespero de verem o PTB crescer a cada eleição, de forma que sua vitória, na futura eleição presidencial, era não só previsível mas inevitável.
Dois Brasis se defrontavam ali. Numa vertente, estava o Brasil das Reformas de Base, empenhado em abrir perspectiva para uma nova era, fundada numa prosperidade oriunda da economia rural e da mobilização da economia urbana, ampliada através das outras reformas em marcha: a urbana, a fiscal, a educacional e a administrativa. Na vertente oposta, estava o Brasil da reação, em união sagrada para a conspiração e o golpe, sem qualquer escrúpulo, a fim de manter a velha ordem.
O Brasil vinha se construindo, confiante como nunca em sua capacidade de transformar-se para superar o atraso e acabar com a pobreza, quando sobreveio o golpe militar de abril de 1964. O que queríamos era alargar os quadros sociais, para que mais brasileiros tivessem empregos em que progredissem por seu esforço, para que todos comessem todos os dias, para que cada criança tivesse oportunidade de completar seu curso primário. Vale dizer, aquilo que é progresso e modernidade para nações civilizadas. Tudo dentro da democracia e da lei.
O golpe militar de 1964 foi uma irrupção abrupta do fluxo histórico brasileiro, que reverteu seu sentido natural, com efeitos indeléveis sobre a soberania e sobre a economia nacional e também sobre a cidadania, sobre a sociedade e a cultura brasileiras. Vínhamos, há décadas, construindo a duras penas uma nação autônoma, moderna, socialmente responsável e respeitosa da ordem civil, quando sobreveio o golpe e a reversão.
O Brasil atual é fruto e produto da ditadura militar, que armou-se de todos os poderes para conformar a realidade brasileira segundo diretrizes opostas às até então vigentes. O golpe militar teve como finalidade, basicamente, impedir aquelas reformas. Para isso é que mobilizou os latifundiários, em razão dos seus interesses; e os políticos da UDN e do PSD, que vinham minguando ano a ano. Apesar de poderosas, estas forças nativas não podiam, por si mesmas, derrubar o governo. Apelaram, então, para o capital estrangeiro e seu defensor no mundo, que é o governo norte-americano, entregue à estratégia da guerra fria. Os conspiradores de 1964 não só aceitaram, mas solicitaram a intervenção estrangeira no Brasil, rompendo nossa tradição histórica de defesa ciosa da autonomia e de repulsa a qualquer ingerência em nossa autodeterminação.
Assim é que se pôs em marcha a operação de desmonte do governo constitucional brasileiro através de um golpe urdido na embaixada norte-americana, orientada pelo Departamento de Estado e coordenada pelo adido militar, que atou ações golpistas dos governadores de Minas, do Rio e de São Paulo e as articulou com a conspiração subversiva dos oficiais udenistas das Forças Armadas, que maquinavam desde 1945 contra a democracia brasileira.
As ações operativas de criação de um ambiente propício ao golpe foram entregues à CIA, que recebeu para isso dezenas de milhões de dólares, competentemente utilizados na mobilização de toda a mídia para uma campanha sistemática de incompatibilização da opinião pública com o governo - definido como perigosamente comunista -, seguida de promoção de grandes marchas pseudo-religiosas de defesa da democracia e das liberdades. Ambas tiveram profunda repercussão nas classes médias, sempre suscetíveis de manipulação, mas não afetaram o apoio popular ao governo populista,
Simultaneamente organizaram instituições especificamente destinadas a subornar parlamentares: o IPES e o IBAD, que chegaram a aliciar centenas de deputados e senadores para o golpismo. Ao mesmo tempo infiltraram agentes provocadores nas forças armadas, como o cabo Anselmo, treinados para atos de insubordinação, destinados a sensibilizar a oficialidade, como se fossem atentados à hierarquia militar. Criou-se, assim, o ambiente propício à eclosão do golpe militar.
O inconveniente maior de conspirar com os norte-americanos é que, passados vinte anos, eles abrem seus arquivos e contam tudo. Assim sucedeu com a documentação referente à intervenção do governo de Lyndon Johnson. Uma vez divulgada, ela permitiu ver como o golpe foi urdido na embaixada norte-americana por seu adido militar, orientado para isto desde Washington. Foi desencadeado com forte contingente armado, postado no Porto de Vitória, com instruções de marchar sobre Belo Horizonte.
Conforme se vê, a direita brasileira e seus aliados externos estavam dispostos a desencadear uma guerra civil sangrenta, com risco de dividir o Brasil como sucedeu na Coréia e no Vietnã, para evitar que algumas reformas estruturais, indispensáveis desde sempre, fossem executadas legalmente pela vontade dos brasileiros, João Goulart é que, negando-se a dar uma ordem que importasse em derramamento de sangue, impediu essa guerra civil, que a seus olhos podia ter custado a vida de milhões de brasileiros e, provavelmente dividido o Brasil em dois.
Registrando esses fatos, agora, reavalio minha própria posição, que era contrária à do Presidente. Fiz o quanto me foi possível para que o governo respondesse à sublevação com ações concretas. Era perfeitamente possível usar os aviões do Brigadeiro Teixeira para devolver aos quartéis a tropa de recrutas de Mourão, o general que se designara como vaca fardada, porque deu o golpe e não aproveitou. Os fuzileiros do Almirante Aragão podiam também ter prendido Lacerda e Castello Branco. A essas ações se seguiria, previsivelmente, a adesão dos grandes exércitos a um governo que se revelara capaz de defender-se. Esta não foi a visão do Presidente, informado por outros conselheiros de que uma armada norte-americana estava vindo intervir nas nossas lutas internas, o que converteria o golpe, se revidado, numa guerra civil.
O golpe foi todo um êxito, proclamado como a maior vitória do Ocidente contra o comunismo, maior que o desarmamento nuclear de Cuba, maior do que a crise de Berlim, disse orgulhoso o idiota embaixador Gordon, Jango não caiu por ocasionais defeitos de seu governo. Foi derrubado em razão de suas altas qualidades, como o responsável pelo maior esforço que se fez entre nós para passar o Brasil a limpo, criando aqui uma sociedade mais livre e mais justa.
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